Numa noite escura, o céu parecia pesar. Raios o riscavam em direção ao chão, por segundos, era como se a noite tivesse virado dia. Estava para cair um grande temporal naquela pequena cidade, e nessa situação, três jovens - duas garotas e um rapaz -, resolveram “pregar uma peça”. Eles saíram em direção ao hospício, - especificamente no cemitério de indigentes - levando um grimório* comprado pela internet, e o abriram em um encantamento que prometia trazer de volta aqueles que não mais estavam entre os vivos. Ignorando completamente os avisos sobre as consequências, eles deixaram-se levar pela adrenalina e tentaram invocar forças desconhecidas, implorando ajuda aos antigos deuses pagãos. Nada aconteceu. Os três, decepcionados e frustrados, deram meia-volta em direção a suas medíocres casas. Mal sabiam que 15 minutos depois que partiram, algo mudou naquele lugar.
Anita, uma das internas por visões sobrenaturais, sentiu o ar esfriar e percebeu o que havia acontecido. Seu grito de angústia ecoou pelo quarto trancado. Ela esbravejou e berrou, os enfermeiros deram-lhe tranqüilizante sem acreditar em uma palavra do que aquela mulher dizia. Não demoraria para todos saberem que ela não era louca.
* Grimório: livro de conhecimentos mágicos com anotações de práticas pessoais, muito comum no final da Idade Média. Tais livros contêm correspondências astrológicas, listas de anjos e demônios, orientações sobre como efetuar feitiços, conjurar entidades sobrenaturais e da confecção de talismãs, de acordo com o ponto de vista e com os estudos experimentais do autor.
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Um vira-lata passeava por entre as tumbas, buscando algo que saciasse sua fome. Ao ouvir um ruído, saiu em busca do som, até que encontrou sua fonte. Seus olhos brilharam de medo ao ver uma mão sair de dentro de uma das covas.
A mão pálida, cadavérica, sustentava uma pele podre com odor insuportável. Os ossos estavam à amostra, principalmente na junta dos dedos. O animal correu desesperadamente, mas não tardou para deparar-se com um maltrapilho, sujo de terra e com roupas rasgadas pelo tempo, e este o agarrou. As órbitas do morto-vivo estavam vazias, não havia mais orelhas, e no lugar do nariz só se via um pedaço irreconhecível de carne em decomposição.
Ele torceu o pobre cão como se o animal fosse apenas um pano, rasgou-lhe o ventre e o jogou contra uma lápide de mármore afiado. Pegou seu intestino delgado entre os dedos, uma parte pendia quase tocando o chão, e devorou numa velocidade estupenda. Não era difícil de entender que alguns meses sem comida e soterrado pela terra faria isso com as pessoas.
Absolutamente nada escapava daqueles seres recém-ressurgidos da terra. Mais e mais cadáveres despertavam, e eles matavam e devoravam qualquer coisa. Insetos, ratos e tudo mais eram consumidos. Uma trilha de restos era deixada por onde eles passavam. Apenas um deles, completamente deslocado em meio aos outros, não se fartava desses banquetes horrendos. Ele apenas seguia os outros por entre a cidade adormecida. Ele não reparava na matança, era também o menos deformado, - havia menos de um mês seu falecimento - os vermes ainda não haviam começado a consumir suas carnes. Os olhos foscos ainda estavam em suas cavidades, e a única coisa que denunciava seu estado, era o tom arroxeado que a pele adotara depois da morte.
O sol estava para raiar, ameaçando qualquer plano que aquelas criaturas, em sua maioria anencéfala, pudesse ter. Todos voltaram rapidamente para suas catacumbas, não estavam fortes o suficiente para um ataque em massa. Mas em breve estariam, e então a cidade silenciosa seria povoada por gritos e horror.
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Os três amigos, espantados com o que acontecera, liam e reliam o grimório freneticamente, em busca de algo que pudesse reverter aquilo. Eles nada encontraram, a não ser uma pequena charada:
“O mais abundante dos metais contra os Bleaks é eficaz, porém não basta possuí-lo. Quem o possuir tem de ser perspicaz, e em qualquer parte por onde jorraria ao menos um pouco do precioso fluído rubro, deverá acertar um golpe. Que na certa libertará a alma deles a galope.”
Mas de nada adiantaria se a charada não fosse desvendada. Eles então, se puseram a pensar enlouquecidamente no assunto.
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No hospício, Anita desistira de tentar convencer as outras pessoas de que algo sobrenatural havia ocorrido. Agora, ela se empenhava em achar uma forma sutil de agir. Sentia que a ameaça não estava tão distante, muito pelo contrário, era como se ela pudesse tocar os que estavam a poucos metros dali.
A tarde esfriava e Anita não aguentava mais ficar impotente perante aquela situação. Ela podia sentir tanto os invocadores daquele caos, quanto os invocados, e achou ser mais seguro ir à busca dos invocadores. Esgueirou-se por entre a cerca do hospício, usando uma camiseta branca simples, calça jeans e chinelos, o melhor que pôde conseguir, depois correu até chegar à rodovia. Seus curtos cachos negros iam até os ombros, esvoaçando-se. Chegou à cidade ofegante, e seguiu seus instintos até uma casa no centro. Bateu na porta, podia-se ouvir uma voz quase infantil perguntar quem era. Anita respondeu que era a ajuda.
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Os três culpados ficaram completamente pasmos com tudo que a bonita moça de cachos escuros sabia sobre o que eles haviam feito. Foi ela quem desvendou a charada, que se referia ao alumínio, o metal mais abundante, o resto era tão evidente que não havia necessidade de grandes explicações. Ela também percebera pequenas notas de rodapé no livro maligno, que diziam claramente que só mortos há menos de um ano atenderiam ao chamado.
Não tardaram em procurar objetos afiados de alumínio, não foi difícil de encontrar, mas tiverem trabalho em deixá-los bem amolados, pois não poderiam correr o risco de falhar. Evitaram buscar auxílio, pois não acreditariam neles, e já era suficiente uma ser taxada de louca.
A noite se aproximava enquanto os quatros iam direção ao cemitério. Postaram-se com facas de trinchar em punhos, esperando que as criaturas se erguessem de seu esconderijo, não demorou muito e assim que os últimos raios do sol partiram a primeira mão levantou-se da cova.
Com terra recém-revolvida, a “morta” estava num estado de deterioração deplorável, tentou agarrar a menina que estava paralisada, mas o garoto não hesitou e enfiou a lâmina de trinchar no local exato onde um dia batera um coração. A Bleak virou pó quase em instantes, deixando apenas as roupas sujas e maltrapilhas no lugar onde estivera antes.
Seus companheiros não tardaram em ajudar. A garotinha que antes estivera paralisada de temor, agora estava efervescente, bramia sua lâmina com toda a vontade e os Bleaks evaporavam um a um perante ela. Mas eles eram muitos.
O mais fraco já havia tombado, talvez devido à adrenalina, ou a falta de laços que eles tinham para com ele. Os três que restavam de pé se ajuntaram ao redor do corpo inerte.
Outro tombara, só restava Anita, a enérgica menina e uns poucos Bleaks. Um deles quebrou o pulso da menina, desferiu um golpe de punho cerrado em sua face, que a derrubou agonizante. O outro que estava escondido se jogou às costas de seu semelhante antes que ele atacasse mortalmente a destemida garota, que jazia inconsciente do lado dos corpos dos seus outros dois amigos.
Anita acabou com os últimos dois que restavam em partes fáceis de atingir, um no braço e a outra no pulso. Ela virou-se para aquele que quase matara a menina e estava sendo imobilizado pelo outro. Acertou-lhe a face, e mirou a faca no abdômen daquele que imobilizara o outro, mas parou imediatamente ao ver o seu semblante sereno e conhecido, a arma estava imóvel a apenas centímetros da barriga dele. Ele lhe era familiar demais, ele tinha sido o único que acreditara nela, e ela o amara, mas ele foi arrancado dela subitamente sem ao menos ter tido direito a uma despedida. Seu coração parara de bater inesperadamente, ela pranteara dias, mas havia se conformado, e o tempo apagara as mágoas e as lembranças não vividas.
Ela não se conteve e, com a lâmina ainda aposta, o beijou suavemente nos lábios. Ele tentou murmurar, mas nenhum som saiu de sua garganta, Anita percebeu, pelo movimento dos lábios, que ele queria ter dito “eu te amo”. Depois disso, pegou as mãos da amada e as guiou com a lâmina em direção a si próprio. Diferentemente dos outros, não virou pó, desfaleceu inerte e como um anjo, sua face outrora roxa, ficou branca e serena, e começou a simplesmente tornar-se uma imagem cada vez mais desfocada até que depois, não restava mais nada.
Anita largou tudo e correu em direção a saída do cemitério, adentrou na mata e correu desesperadamente enquanto lágrimas vertiam dos seus olhos escuros e faziam sua face pálida resplandecer a luz da lua, que sumia por entre as nuvens que anunciavam um forte temporal.
9 comentários:
Muito legal a estótia, fato verídico?
acho q não néh...
muito massa!
Não é verídico não, quinta tem outro conto
continua, amor, amei !
beijos <3
extremamente envolvente. de um foco mto preciso e instigante. curti mto e, o melhor de tudo, ñ deixou furos (:
Uau. Difícil encontrar contos de suspense tão bons. O final foi surpreendente, apesar de um pouco clichê.
Você escreve muito bem, em pouco tempo fará sucesso :D
SIMPLESMENTE MAGNÍFICOOOOOOO!!!! Sua estrela vai brilhar e muito meu anjo!!! É chover no molhado dizer que vc tem talendo, e tem de sobra!!!! Continue firme e forte nesse caminho, pois será um caminho cheinho de vitórias!!! E eu? Bom! Eu estarei entre muitos admiradores de suas obras, mas certamente a mais empolgada dentre eles kkkk!!! E o aplaudirei em pé, com muito AMO e ORGULHO!!!! Amo vc!! SUCESSOOOOO meu anjo!!! Vc merece!!!!!
Kraca manolo'..
Gostei muito do seu conto.
Continue assim que vooc vai longe x.x
Muito muito muito bom!
Sinceramente, superou minhas expectativas. Gostei muito da linguagem culta empregada ao texto. Parabéns!
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